Thomas de Hartmann – Como eu poderia descrever Gurdjieff?

Parece-me que o único meio é não descrever a sua pessoa, mas evocar o modo como trabalhava conosco. Só falando da nossa própria experiência é possível dar uma idéia desse trabalho, na sua relação com o ser humano. Este é o meu propósito. Relembrando nossa vida com ele, me volta aos poucos à memória tudo o que ele disse, tudo o que ele fez. De minhas lembranças, reunidas como as peças de um quebra cabeça, tenho hoje uma compreensão muitas vezes diferente. Suas idéias emergem claramente, uma após outra, até que, finalmente o extraordinário conjunto aparece.

Mas, para as pessoas que não os experimentaram, os princípios de Gurdjieff podem se comparar às verdades cristãs expressas nestas palavras: “A fé sem obras é uma fé morta”. Penso que a palavra “fé” designa aqui algo racional, e não uma aceitação cega. Quanto às obras, não se trata de “boa obras”, como se crê comumente. Essa palavra indica um trabalho evolutivo e criador com relação com as idéias.

Com Gurdjieff tudo era vivo e concreto e suas idéias não podem se separar da vida. Ele mesmo era Vida, Evolução. Ele era o seu Trabalho.

Só depois de tão longos anos é que começo a compreender o que o seu Trabalho, tomado como um todo, significa e que imenso esforço ele teve que fazer para instilar em nós o germe de uma nova compreensão e de uma abordagem nova da vida. Não sei se a minha interpretação é correta e ninguém pode sabê-lo. Só um homem do mesmo nível de Gurdjieff poderia compreender de maneira real e plena o sentido de seu Trabalho.

George Ivanovitch não está mais entre nós, mas seu Trabalho conosco continua, enquanto não nos esquecermos de suas palavras: “ Lembrem-se do motivo por que vieram à Terra.”

Referência bibliográfica
Thomas de Hartmann – Nossa vida com Gurdjieff – Editora Pensamento – Página 18

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